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Aprisionado no silêncio quase constante que lhe impunha sua condição de criança autista, o menino Rhuan, de apenas nove anos, tornou-se a razão e o objeto do ódio de um casal de mulheres, Rosana e Kacyla.

O menino foi emasculado. Submetido a humilhações e torturas. Até o dia em que sentiu suas costas invadidas pelo aço frio de uma série de facadas. Ainda vivo, viu sua garganta ser cortada até sua cabeça ser totalmente separada do resto do corpo. Arrancaram a pele de seu rosto, como se fosse uma máscara. Desmembrado, foi acondicionado em duas mochilas cor de rosa.

Não é uma tarefa simples compreender por que Rosana e Kacyla cometeram sorte tão grande de barbaridades.

No distorcido e apavorante universo das mentes de Rosana e Kacyla, misturou-se ódio religioso, questões de gênero, violência cometida por e contra elas.

Esta é a história de como de certa forma Rosana e Kacyla foram igualmente desmembradas das suas características humanas para se tornarem frias assassinas.

Esta série especial publicada de forma simultânea na versão impressa e eletrônica do Jornal de Brasília contará a trágica história do menino Rhuan e dos demais personagens desse drama brasileiro.

Esta reportagem é dedicada à inocência… Que em algum lugar se encontra perdida, ansiando por ser resgatada.

Personagens

Rosana: cinco anos e meio separam mãe e monstro

Por que a mulher amorosa, grata pelo filho que recebeu de presente, tornou-se a assassina que esfaqueou e esquartejou o menino?

Olavo David Neto
Enviado especial a Rio Branco (AC)
[email protected]

“Deus, muito obrigada pelo presente que me tem concedido. É uma benção na minha vida. É um grande tesouro que não tem preço, é jóia rara que ilumina a minha vida todos os dias! […] Eu só tenho a agradecer, Senhor, pelo teu amor na vida do meu filho. Te amo, meu amor Rhuan.”

Cinco anos e cinco meses separam a declaração de amor de Rosana ao filho Rhuan, do assassinato macabro do menino, que foi emasculado, esfaqueado, esquartejado, decapitado e teve a pele do rosto arrancada no dia 31 de maio deste ano, em Samambaia.

Nascida em 25 de agosto de 1991, primogênita de seis irmãos, Rosana teve o carinho e a atenção que os outros filhos de Maria Antônia da Silva Candido não tiveram. Cresceu recatada, gostava de brincar sozinha com as bonecas, dentro da casa da família no bairro da Cadeia Velha, às margens do Rio Acre. “Nunca foi de rua”, comenta a mãe. “Desde pequena, ia pra igreja”. A fé e as brincadeiras solitárias dividiam espaço com os estudos. Abandono e abuso

Do pai, Jair Ferreira, Rosana nada teve. Nem carinho, nem registro na certidão de nascimento. Vazio paterno. Apenas pouco antes de fechar a primeira década de idade, ela soube quem era seu progenitor. Com nove anos, passou a frequentar a casa que lhe fora negada, mas o convívio tardio com o pai foi conturbado. “Ela foi ficando chateada, até o ponto de ela esquecer que tinha pai”, lamenta Maria Antônia. Aos 13 anos, cessaram-se as tentativas junto a um homem que não lhe demonstrava amor.

A figura do pai, então, foi substituída pela do padrasto, o Leco, que a via mais como mulher que enteada. Samara, irmã de Rosana, relata que o então marido da mãe tentou abusar dela. “Realmente, ele vinha com ‘inxirimento’ pra cima da gente quando tava bêbado”, relembra Samara.

Aos 16 anos, começou a namorar Maycon Douglas, com quem teria Rhuan. “A gente começou a ficar, coisa de adolescente. Nosso relacionamento era ótimo, era bem intenso”, recorda o rapaz acreano.

“Ela era louca pelo Rhuan”, comenta Maria do Socorro, avó paterna do menino. “Tanto que ele mamou até os três anos, e ela nunca fez questão de tirar. Era um apego grande com aquele menino”, diz a senhora, lutando sem sucesso para conter as lágrimas.

A incredulidade é um sentimento em comum entre todos que conheciam Rosana naquela época. Liberdade Nascimento, amiga da igreja, morou por um mês com Rosana, quando ela já havia saído da casa de Maycon e passou a dividir o teto com Kacyla, que viria a se tornar sua companheira e cúmplice no assassinato de Rhuan. “Ela era muito carinhosa com o Rhuan” relembra Liberdade, dizendo ainda não acreditar na morte do menino.

 
“Mas a Kacyla começou a dizer para a Rosana que ela tinha que amar menos o Rhuan, que não podia ter muito apego senão Deus ia tirar o filho dela.”

Liberdade Nascimento

 

Liberdade recorda, ainda, que Rhuan tinha medo da companheira da mãe, principalmente nos momentos em que ela ia dar-lhe banho.

 
“Ela dava banho frio no menino às seis horas da manhã e ainda pedia a ele que a chamasse de mãe.”

Liberdade Nascimento

 

Começa aí uma trajetória sem volta. Tem início o lento assassinato de Rhuan que seria consumado no dia 31 de maio de 2019.

Kacyla sugeriu que Rosana passasse por uma purificação religiosa. A transformação se tornava cada vez mais irreversível. Após o tratamento proposto por Kacyla, Rosana se tornou cada vez mais fanática e cada vez mais distante da figura materna que escrevia declarações de amor ao pequeno filho no Facebook.

 
RosaAntesRosaDepois
 

Kacyla: Triste retrato de nossos tempos

No segundo capítulo da série, a história de Kacyla, mentora da transformação que levou ao crime.

Em diversos aspectos, o caso Rhuan é a mais trágica representação dos pesados conflitos que marcam os tempos em que vivemos. O violento confronto – que de um lado coloca o fundamentalismo religioso, a violência de gênero, a homofobia e outras formas de intolerância e do outro torna vítimas justamente os mais frágeis dos envolvidos nessa cadeia – produziu-se internamente na cabeça de duas mulheres, Rosana e Kacyla.

Dizer simplesmente que as duas são monstros é uma simplificação grosseira inaceitável. Desde o início, o Jornal de Brasília quis compreender as motivações por trás de tamanha barbaridade.

Assim, fomos a Rio Branco, cidade de origem de todos os personagens envolvidos nesse drama brasileiro. Para mergulhar no passado delas, nas suas histórias, e produzir esta série especial.

No primeiro capítulo, mostramos a impressionante transformação de Rosana, de mãe amorosa a cruel assassina. Hoje, nosso foco volta-se para Kacyla.

A apuração da reportagem demonstra papéis específicos das duas mulheres. Kacyla parece ser a mentora da transformação que ocorreu com ambas. E Rosana o instrumento pelo qual concretizou-se a maldade.

Ex-pastora, é ela quem induz Rosana à mudança, pregando seu afastamento do filho Rhuan e fundando as bases da religião que pretendiam fundar. Uma religião na qual o sentimento homoafetivo das duas não fosse visto como pecado. Mas que incorporava também aspectos de certo Deus vingativo do Velho Testamento.

Por um desvio distorcido da mente de ambas, o menino Rhuan parece virar o desaguadouro de todos os ódios que as duas guardavam represado.

Brincadeira de Kacyla era benzer crianças

Olavo David Neto
enviado especial a Rio Branco (AC)
[email protected]

Desde muito pequena, Kacyla Priscila Santiago Damasceno via-se como líder religiosa. Ao invés de correr ou pular na rua, sua brincadeira preferida era reunir a meninada da vizinhança para benzer a todos, tentando curá-los de suas chagas. “Ela punha a mão na cabeça deles e fechava os olhinhos com força, rezando”, comenta dona Raimunda.

Kacyla veio ao mundo no dia 22 de agosto de 1990 . Com apenas 11 meses, conheceu o abandono. A mãe, envolvida num assalto, deixou a menina ainda bebê, que acabou resgatada pela avó em Sena Madureira, a 145 km de Rio Branco. “Cheguei e ela estava em cima de um colchão todo encharcado de xixi”, comenta Bizita, como é conhecida dona Raimunda Lima, hoje com 73 anos.

O carinho só veio para Kacyla mais tarde. Xodó dos tios, a quem chamava de irmãos, Kacyla cresceu, então, como a menina dos olhos da nova família. O carinho era tanto que, além de Bizita, seu avô, conhecido como Francisco “Cobra Verde”, e a filha mais velha do casal dividiam a guarda da criança. Com três lares, ela podia escolher onde ficar. “Quando a gente dava bronca aqui, ela ia pra casa do avô. Quando ele ‘dava dura’, ela ia pra casa da Silvana”, relembra a avó e mãe de criação.

Despertar religioso

Kacyla dividia-se entre brincadeiras no quintal de casa e as missas católicas na paróquia do bairro na companhia de Bizita. Quando a tia Silvana converteu-se ao protestantismo, migrou junto para os cultos evangélicos na Igreja das Graças. Nesta época, passou a ler a Bíblia incessantemente. Os versículos que mais lhe tocavam iam para a ponta do lápis e, depois, ela colava nas paredes da casa. “Aqui, vó, pra quando a senhora precisar ler”, comentava.

Mas a leitura e a escrita não se restringiam aos textos religiosos. Gostava de romances. Tinha talento para criar histórias, e tinha como passatempo escrever contos nas folhas do caderno, ao invés de usá-los para as aulas. Kacyla frequentou o Colégio Acreano, e lá se formou no Ensino Fundamental sem qualquer destaque. A vida escolar não era seu forte, e ela preferia se dedicar às histórias inventadas na própria cabeça à versão dos livros didáticos. Lia e escrevia romances. Nesse período, se apaixonou.

Rodrigo Oliveira cresceu próximo à família e olhava Kacyla de longe, cada vez mais encantado pela jovem. Era flagrado observando a menina por dona Raimunda. Com o tempo, não se conteve e venceu a vergonha: “Eu vou casar com ela, Bizita”, disse o rapaz. E a matriarca não se opunha ao relacionamento. “Eu via com bons olhos, sim”, ri-se a avó. “ Os dois eram virgens quando casaram”, comenta, orgulhosa. Começaram a namorar aos 19 anos, e um ano depois já estavam casados. Dentro da igreja que frequenta há quase uma década, ele lembra que o relacionamento do casal tinha um forte viés religioso. “Todas as noites líamos a Bíblia antes de dormir”, recorda Rodrigo.

Algo, porém, aconteceu no relacionamento não muito depois. Após o nascimento da filha, o casal se separou – por decisão dele. “Ela se tornou bipolar”, relembra Rodrigo. Com o fim do casamento, Kacyla voltou à casa do avó-mãe. Solteira, tinha uma vontade nunca antes vista de frequentar baladas, conforme conta Bizita. “Às vezes ela queria sair e eu falava que não, porque a filha precisava dela. Ela sentava no sofá e ficava muda, como uma estátua”, relata dona Raimunda.

Quando decidiu deixar a casa da família, Kacyla convidou a amiga Liberdade Nascimento para dividirem um apartamento. O imóvel era no bairro do Santo Afonso, e Kacyla passou a frequentar a Igreja Renovada. Foi quando reencontrou Rosana, velha colega de classe. Também separada e com filho, as duas iniciaram um romance, mas não assumiam o relacionamento amoroso que aflorou.

Com a convivência, veio a doutrinação e as sugestões de Kacyla para que Rosana perdesse o apego pelo filho Rhuan. Logo, Liberdade foi expulsa da casa. Tinha, assim, início uma relação de amor e fanatismo, que culminaria no bárbaro crime cometido no dia 31 de maio de 2019, em Brasília.

Por que a criança amada virou alvo de ódio?

A história de Rhuan: a infância com a mãe e a família até a chegada de Kacyla – mulher que mudou para sempre a sua vida.

A casa, toda de madeira e plantada sobre um bloco de alvenaria, é escura e sombria como o ambiente da família após a morte do neto mais velho, Rhuan Maycon. Atrás de uma cerca também de madeira, rostos entristecidos recebem quem entra para contidos apertos de mão. Tudo ali respira Rhuan: das fotos na entrada da casa às lembranças nos lábios daqueles que, 40 dias depois, lamentam o assassinato do menino aos 9 anos de idade.

No bairro da Cadeira Velha, não há quem passe pela Rua São Raimundo sem entrar ou, ao menos, acenar em frente à residência de Francisco das Chagas. Chaguinha é agitado. Não descansa até a visita se sentir em casa. Não repetir o prato oferecido à visita é quase uma ofensa. Quando tudo parece tranquilo e ele aparenta estar relaxado, voltam as memórias de Rhuan; o sorriso aberto se fecha, os ombros se curvam e o rosto tomba lentamente com o peso da tristeza.

Paira pesada no ar, quase visível, a pergunta: “Por quê?” Que elementos são capazes de desconectar de uma mulher o sentimento materno? Por que Rosana transmutou-se de mãe amorosa a assassina de seu próprio filho? Como esse ódio se construiu? Quem o alimentou? Rhuan e os sentimentos contraditórios alimentados contra ele são o tema da terceira reportagem da série.

Com leve grau de autismo, menino era o xodó do “vovô-pai” Francisco

Olavo David Neto
Enviado especial a Rio Branco (AC)
[email protected]

O primeiro a chorar é Chaguinha, como é conhecido Francisco das Chagas, 63, avô de Rhuan Maycon. É, também, quem inicia a tensa conversa com a reportagem do Jornal de Brasília. Antes mesmo das entrevistas, apressa-se em mostrar fotos e objetos do neto. “Foi uma pessoa que veio ao mundo pra me alegrar muito, uma alegria que eu tive que durou pouco”, diz o homem de rugas singradas pela saudade.

Na cadeira de balanço, ele rememora os momentos ao lado da criança, que, aos quatro anos, foi tomada pela mãe e levada numa viagem clandestina que lhe tomou mais da metade da vida. Nas falas, Francisco utiliza os verbos no presente e demonstra esperança na volta do garoto. “Minha relação com meu neto é uma relação muito boa”, diz. Mas, quando a realidade vem à cabeça, corrige o tempo verbal: “A gente era muito apegado.”

Com carinho, o avô lembra da fala enrolada do neto, que não pronunciava as palavras adequadamente para a idade. “Ele tinha quatro anos, mas falava enroladinho”, recorda. Na língua própria de Rhuan, parafuso era apenas “afuso”, e a residência dos avós era a “tasa” dele. Nas voltas dos passeios – que invariavelmente terminavam em sorvete -, o menino alertava o avô dos perigos da natureza. ”Vovô-papai, cuidado que pode ter uma ‘coda’ aí”, referindo-se a cobras.

Conforme relata Eliana Veras, tia paterna, Rhuan fora diagnosticado com leve grau de autismo. Apesar de não ser determinante na personalidade do garoto, a condição dificultava-lhe a comunicação, sobretudo com outras crianças. Mesmo assim, os parentes mais próximos “conseguiam entendê-lo”, comenta Eliana. Sobre a forma como Rhuan o chamava, Francisco explica que, por ter criado o menino desde bebê, não foi avô comum. “Ele sempre me chamava de ‘vovô-papai’, porque conviveu comigo, não com o pai”. Em entrevista publicada pelo Jornal de Brasília em 17 de junho, Chaguinha afirmou que Maycon Douglas, 27, “era carinhoso, mas dava pouca atenção ao filho Rhuan quando ia visitá-lo lá em casa”.


Em 2009, pouco antes de saberem que Rhuan viria ao mundo, Francisco e a esposa sofreram um acidente de moto que amputou a perna esquerda de Chaguinha. Na garupa, Maria do Socorro, a esposa, teve fraturas na bacia, no fêmur, no joelho e no pé. Quando soube que o clã aumentaria em breve, a matriarca se preocupou. “Eu não podia dar apoio. Passei quatro meses em cima de uma cama”, conta. Mas logo se convenceu que o primeiro neto traria alegria, e ajudaria inclusive na recuperação.

O nascimento coincidiu com o recebimento do seguro, que foi gasto no enxoval de Rhuan. “Eu que dei o primeiro banhinho dele. Era uma criança muito alegre, mesmo pequenininho. Era muito especial”. Neste ponto, ela pede uma pausa na entrevista para chorar.

Em 20 de maio de 2010, Rhuan veio à vida; os pais já não estavam juntos. Crescido, tinha problemas em assimilar por que vivia com a mãe na casa dos avós paternos enquanto via o pai apenas em visitas depois do trabalho. “Eu vinha ver ele, tranquilo. Ela tinha a vida dela, eu tinha a minha. Era isso. Eu trabalhava numa empresa que era bem longe da cidade”, conta Maycon, que saiu da própria casa quando Rosana foi levada, pela mãe, para morar lá. “A história aconteceu porque eu não queria que ela ficasse aqui e meu pai queria que ela ficasse. Aí, a gente entrou numa discussão, eu falei que ia embora e fui”. Chaguinha, entretanto, tem outra versão. “Eu expulsei ele daqui pra ela poder morar com o Rhuan”, contrapõe, sereno.

Entre as visitas esporádicas do pai e o colo da mãe, Rhuan crescia e se apegava cada vez mais ao avô. Perguntado se isso o incomodava, Maycon refuta, de cara amarrada. “Ele vivia aqui com meu pai. É claro que ia ser mais apegado com ele”, diz. Chaguinha não era o único apegado ao garoto: a alegria contagiava a todos com quem convivia. Sorridente e brincalhão, o pequeno gostava da chuva. “Ele adorava quando chovia. Queria tomar banho, nem que fosse só um pouquinho”, lembra, entre lágrimas, a avó paterna.

Neto com jeito de filho

Quando ganhou do avô uma bicicleta, Rhuan só tinha olhos para o brinquedo. “Era a paixão da vida dele”, diz Socorro. A voz some e os olhos inundam; a face se retorce em dor enquanto ela busca no peito o ar para reconstituir a convivência com o neto mais velho. A relação ultrapassava rótulos familiares. “O Rhuan era que nem um filho. Dizem que avó é ser mãe duas vezes, eu era mãe quatro vezes. Ele tinha muito carinho, amava muito a gente”.

Maria Antônia, mãe de Rosana, cuidava do neto quando a família paterna precisava resolver coisas do cotidiano na rua. “Ele gostava muito da gente”, conta a avó materna de Rhuan. “Não tinha muito contato, mas era louco por mim, pela Samara [irmã de Rosana]”. Na igreja, o garoto descobria uma veia musical, estimulado pelos parentes. “Ele gostava muito de tocar bateria. Pedia pra tocar. Ele não falava muito bem, mas sempre apontava as coisas”. Mas a relação de Rosana com a mãe, Maria Antônia, caiu em desgraça após a morte do padrasto, em 2013.

Mãe e filha se afastaram quando, ansiosa para retornar à casa da família, Rosana viu o pedido negado por dona Maria. “Eu não tinha condições e já tinha quatro filhos pra criar. Ela era bem cuidada na casa do Chaguinha”, conta, cheia de remorso. Rejeitada pela família, Rosana maturou a raiva por mais um ano. Foi quando reencontrou Kacyla Priscila, velha colega de escola que passava por situação parecida: separada e com uma filha nos braços. A reaproximação logo se transformou em amor.

Ao assumir o relacionamento para os entes mais próximos, Rosana encontrou mais rejeição. “É inaceitável”, disse Maria Antônia. “Foi um choque. Não só pra mim, mas pra todos que conhecem ela”, acrescenta Maycon.

Brinquedos só podiam ser religiosos

Tida como persuasiva por todos que a conheceram, Kacyla, a nova namorada, entrou de cabeça na vida de Rosana. Na casa onde viviam, o relacionamento e o novo modo de vida estavam atrelados cada vez mais ao fanatismo religioso. Após um tratamento espiritual proposto por Kacyla, Rosana voltou à casa de Chaguinha e Socorro, avós paternos de Rhuan, com o propósito de queimar as vestes do filho, pois, segundo ela, continham imagens “do demônio”. “Tudo porque tinha desenho: Mickey, Pateta, coisa de criança. Eu levantei e fui pra cima dela, e quando a outra [Kacyla] veio, eu bati nela também”, conta, entre risos contidos, Maria do Socorro, fiadora de todo o guarda roupa do neto. Foi o fim da estadia de Rosana no bairro Cadeia Velha.

O novo casal juntou-se de vez no apartamento que Kacyla dividia com Liberdade Nascimento, no bairro Santo Afonso. Lá começaram as primeiras maldades ao menino. Banhos frios de tanque às seis da manhã, por exemplo, eram rotina. Para Rhuan, Kacyla deveria ser chamada de mamãe, e Rosana, de papai. Segundo a companheira com quem dividiam a casa, o amor de mãe e filho era mal visto pela nova madrasta de Rhuan. “Ela dizia que a Rosana não podia amar tanto o Rhuan, que tinha que desapegar, porque Deus iria tirar o menino dela”, relembra Liberdade. Ao mesmo tempo, a filha de Kacyla era tratada “com muito mimo.”

Infância interrompida

“Quando Rhuan vinha pra cá, ele chorava pra não voltar [para a casa da mãe]. Ele não queria ir”, denuncia Maria do Socorro. “Ela tinha muito ciúme do Rhuan”, lembra Maycon. “Coisa de doido mesmo”. As visitas à casa do “vovô-papai” eram o tempo de alegria do menino, até a hora da despedida. “O Rhuan chorava dizendo que não queria ir embora, que não queria ficar com a mãe”, lembra Socorro, entristecida. Tudo porque a volta à casa da genitora mostrava-lhe uma Rosana, se outrora carinhosa, agora mais reservada nos carinhos. Desenhos eram permitidos somente caso “fossem consagrados por Deus”.

Enquanto a família paterna buscava formas de viabilizar o ingresso de Rhuan no sistema de ensino – o menino estava passando por várias consultas médicas -, escola nunca foi prioridade para o casal. Sob as asas dos avós paternos “era tratado como um príncipe”, conforme relata a avó materna, Maria Antônia; com Kacyla e Rosana via pelas janelas do apartamento onde não gostava de morar o início do fim de sua infância feliz.

Jornada de fuga e metamorfose

Após o início do relacionamento, Rosana e Kacyla passam por transformação radical, que definirá o destino de Rhuan. Exigências e restrições religiosas entrarão na sua rotina

Um dia, Rosana e Kacyla pegaram seus filhos, Rhuan e G., e desapareceram no mundo. Passaram por pelo menos seis cidades após Rio Branco, no Acre, até chegar a uma casa humilde em Samambaia, localidade a 30 quilômetros do Plano Piloto.

Para Rhuan, é a trágica jornada de uma inocente criança de menos de nove anos na direção do inferno em vida. As proibições de motivação religiosa relacionadas a desenhos animados, personagens infantis e determinados brinquedos se intensificam.

Ele não brinca mais na rua. Tem de madrugar para estudar a Bíblia e tomar banho frio. Ações na Justiça tentam afastá-lo do restante da sua família. Kacyla também estimula Rosana a se distanciar de Rhuan.

A transformação que se processa sobre Rosana e Kacyla é impressionante. Cortam seus cabelos bem curtos. Rosana irá depois descolorí-los e irá também descolorir suas sobrancelhas. As duas mudam os nomes com que se apresentam. Rosana vira Ana e Kacyla, Priscila.

O que se esboçava nos comportamentos de ambas em Rio Branco no início da relação vai ganhando contornos estranhos que acabarão mais tarde se tornando macabros. O quarto capítulo da série de reportagens especiais sobre o caso Rhuan narra essa jornada.

A longa jornada de um inocente rumo ao inferno


Olavo David Neto
Enviado especial a Rio Branco (AC)
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A estadia de seis anos na casa da família de Maycon Douglas, pai de Rhuan, chegara ao fim. Após uma briga com Maria do Socorro, ex-sogra, Rosana Auri da Silva Candido se juntou à nova companheira, Kacyla Priscila Santiago Damasceno Pessoa, no bairro do Santo Afonso. Atenta às reclamações e ao medo do menino de voltar à casa da mãe, a família paterna conseguiu que Rhuan voltasse à residência onde nasceu, cresceu e gostava de estar. “Ele ficou aqui durante o processo, e, às vezes, ela queria vê-lo e eu levava ele lá na frente”, conta Francisco das Chagas, ou Chaguinha, o “vovô-papai” da criança. A vida começa a ficar mais difícil para Rhuan. Ele passa a ser obrigado a acordar muito cedo para estudar a Bíblia. A rotina se segue com banho frio às 6h. Desenhos só eram permitidos se fossem “consagrados por Deus”. Brincadeiras de rua tornam-se restritas.

Kacyla convenceu a namorada a participar de um “tratamento espiritual”, e quando voltaram, Rosana já havia cortado os longos cabelos. O casal montou um verdadeiro cerco jurídico em torno de si. Entre visitas esporádicas acompanhada da nova companheira – que estimulava Rosana a se desapegar do filho -, a mãe de Rhuan fez diversas denúncias contra Chaguinha e o ex-namorado, Maycon. “Ela falou que eu corri atrás dela, ameaçando”, comenta Francisco, que perdeu a perna direita num acidente de moto em 2009 e sequer usava prótese à época. “Você já viu um aleijado correr atrás de alguém?”, questiona o aposentado de 63 anos. Maria Antônia, mãe de Rosana, comenta que a filha já havia perdido o sorriso frouxo e a postura feliz, “como se a Kacyla fosse uma mente que conseguiu dominar ela”, conforme o relato da avó materna de Rhuan – que teve de impedir a própria filha de atear fogo à sua casa.

Presente

Quando Rosana apareceu na Rua São Raimundo, no bairro da Cadeia Velha, e pediu para levar o filho Rhuan Maycon “para um passeio”, a família paterna do menino se preparava para comemorar mais um aniversário da matriarca Maria do Socorro. “Hoje, tanto faz. É um dia muito triste”, desabafa Maria. Era 18 de dezembro de 2014, última vez que ela veria o neto mais velho. Sem se convencer do retorno do filho, Maycon pegou a moto e partiu à casa da ex-sogra, no bairro Santo Afonso. “Ele chegou aqui com os olhos cheios de lágrimas, dizendo que ela não ia devolver o menino“, lembra Maria Antônia, avó materna de Rhuan. “Eu disse que, se ela falou que ia devolver, ele ia ver o filho”. Maycon voltou à casa dos pais, mas Maria Antônia sequer acreditou nas próprias palavras. Correu para pedir ajuda, mas, quando voltou, viu Rosana e Kacyla entrarem numa viatura da Polícia Militar com os filhos a tiracolo. “Ela me ligou depois e falou que eu a tinha traído por preconceito“, comenta a mãe.

Rosana e Kacyla moravam na mesma rua de Maria Antônia, a 200 metros de onde o diálogo entre a mulher e Maycon aconteceu. Viu tudo pela janela de casa. As denúncias feitas garantiram escolta policial e vaga numa instituição de apoio a mulheres em situação de vulnerabilidade, a Casa Abrigo Mãe da Mata, local sigiloso coordenado pela Delegacia Especializada de Apoio à Mulher. A Justiça do Acre marcou quatro audiências de custódia, mas as duas não compareceram a nenhuma delas. Chaguinha, avô paterno de Rhuan, soube através de fontes ligadas à instituição que o abrigo teria bancado as passagens para o que seria o início de uma fuga de cinco anos.

 
“A Rosana fechava a cara pra mim sempre. As crianças eram trancadas em casa quando chegávamos lá”

Marizete Chaves

 

Em fuga, dupla é caçada

Para Liberdade Nascimento, que dividiu apartamento com o casal por cerca de um mês, o financiamento da viagem pode ter vindo de longe. Kacyla conhecera um homem no Badoo, aplicativo de encontros, que frequentemente lhe ajudava financeiramente. “Elas comentavam que podiam arrumar as coisas e ir embora para o Nordeste, que esse fulano podia ajudar elas”, rememora a jovem, sem lembrar qual seria exatamente a cidade. O itinerário de Rosana e Kacyla dá pistas: ao sair de Rio Branco, as duas desembarcaram em Maceió (AL). A avenida Dr. Celestino Chagas da Silva, no bairro Cidade Universitária, foi declarada como residência das duas pela advogada de Chaguinha, Octávia Moreira.

O paradeiro veio pelo extrato bancário de Kacyla, obtido de forma clandestina com um funcionário da Caixa Econômica Federal. Os saques da pensão paga por Rodrigo Oliveira – ex-marido de Kacyla e pai da menina G., levada pela mãe – desde o divórcio, em 2010, eram a bússola para seguir o rastro das foragidas, mas as pistas rarearam. As duas sumiram novamente até chegarem a Trindade, interior do estado de Goiás. O radar de Rodrigo e Chaguinha deram sinal.

Os dois resolveram aguardar, e já em 2017, soube-se que elas estavam em Anápolis, outra cidade goiana. É aí que a representante legal de Francisco, avô de Rhuan, aponta falhas. A dupla encontrou a casa onde as mulheres e as crianças moravam, na Rua PB, 1, quadra 07, lote 31, casa 2, no bairro Parque Brasília. Mas, temendo restrições jurídicas, não entrou na casa. “Eles foram ao Conselho Tutelar com procuração e não aceitaram”, relata a advogada. “Quando foram denunciar, disseram que a criança estava com a mãe e também não aceitaram”.

Os meninos não estudaram durante o período clandestino, e também não receberam atendimento médico. O Estatuto da Criança e do Adolescente criminaliza tais práticas. Moreira acrescenta que os pequenos eram estimulados a praticar pequenos delitos, pois “elas não conseguiam sobreviver apenas com a pensão da G.”. Segundo ela, se aceitasse a denúncia “e cumprisse seu papel”, o Conselho Tutelar constataria os maus tratos e a suposta tortura denunciada por Chaguinha. O órgão enviou nota – assinada por cinco conselheiros – ao Jornal de Brasília alegando que Francisco esteve lá apenas com o mandado de Busca e Apreensão, sem qualquer procuração, e não efetuou denúncias.

Mudança de nomes e furto em chácara

Feitas ou não, aceitas ou não, as informações de Octávia batem com o relato de Marizete Chaves, proprietária da chácara onde Rosana e Kacyla receberam abrigo, em Aragoiânia, Goiás. Em 2017, no lote em frente ao dela, duas mulheres e duas crianças foram expulsas pelo fato das adultas serem homossexuais. A orientação sexual do casal já rendera uma expulsão da igreja que as duas frequentaram em Anápolis.

Acolhidas por Marizete, foram acomodadas na casa extra, e lá ficaram por três meses. Até que a família voltou de surpresa à residência de descanso e encontrou uma janela quebrada “com espaço para passar apenas uma criança”. Dentro da casa, deram falta de um forno de microondas, roupas de cama e itens da despensa. “Vimos rastros de carro, fomos à cidade, mas não soubemos quem ajudou na fuga”, comenta Marizete. Ela também conta que pouco contato teve com o quarteto. “Ela [Rosana] fechava a cara pra mim sempre. As crianças eram trancadas em casa quando chegávamos lá”, relata.

Durante todo o período de fuga, Rosana e Kacyla usavam os nomes de Ana e Priscila, respectivamente.


Chegada a Brasília

Quando Chaguinha e Rodrigo decidiram se dirigir à casa onde a dupla morava em Anápolis, as duas já haviam fugido. Segundo pessoas da vizinhança, “elas saíram no final da madrugada levando tudo numa caminhonete preta”. O destino era o Distrito Federal. Guilherme de Sousa Mello, delegado da 26ª Delegacia de Polícia, em Samambaia, acredita que elas passaram cerca de um ano em Ceilândia. Dali, mudaram-se para Samambaia Norte. No final de abril, uma das duas passou mal e foi atendida na Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) da região. Ao fazer o registro na unidade de saúde, os sistemas alertaram sobre o paradeiro das mulheres.

Uma irmã de Rodrigo residente no Distrito Federal visitou o endereço e deu de cara com uma barbearia. Sem desistir, ela deu descrições aproximadas das crianças e das mulheres para funcionários e clientes.

Um dos funcionários disse que, sim, conhecia uma mulher de acordo com o relato. Era a pista que faltava. Francisco e o pai de G. marcaram viagens para a primeira terça-feira de junho, mas apenas Rodrigo embarcaria rumo à capital da República.

Chaguinha, que comprometeu todo o contracheque em esforços para encontrar o neto, encontrou o menino morto. Rodrigo recuperou a filha, e vive com ela e a nova esposa no bairro do Belo Jardim 2, periferia de Rio Branco.

Rosana e Kacyla se mudaram de novo, mas desta vez para o Presídio Feminino do Distrito Federal, o Colmeia, no Gama.

O martírio final de Rhuan

Seguirá para sempre a pergunta: por quê?

Os agentes aproveitaram o portão aberto para adentrar o lote. Com lanternas, iluminaram o corredor que levava à última das três casas, e de cara avistaram duas mulheres, uma das quais facilmente reconhecida pela descrição das testemunhas: cabelos loiros e aparentemente albina. Poucos minutos antes, Guilherme Sousa Melo, delegado-adjunto da 26ª Delegacia de Polícia, em Samambaia Norte, ouvira de alguns jovens que uma mala encharcada de sangue e com carnes que pareciam humanas fora encontrada num bueiro, e uma pessoa de roupas pretas deixara a bagagem ali. O ímpeto de entrar se transformou em chamado para abrir a porta, atendido por uma das mulheres. Armas em punho, os policiais ordenaram que as duas saíssem da residência e se deitassem no chão, no que também foram obedecidos. Ao perguntar sobre o corpo, a resposta da que se identificou como Ana: “É do meu filho. Eu o matei”.

Assim terminava a macabra saga que se encaminhava para o quinto ano. Depois do que só parecia uma fuga ao estilo Bonnie & Clyde, com furtos e momentos quase cinematográficos do casal, executou-se ao final algo mais próximo de um filme de terror. Na madrugada que encerrou maio e inaugurou junho de 2019, as mulheres foram presas numa casa que planejavam deixar em breve, abandonando num bueiro, à rua, os restos mortais do que antes fora o brincalhão e amado Rhuan Maycon. Na última reportagem do Especial – Caso Rhuan, o cruel ponto final da vida do garoto é contado em detalhes.

Uma carta da mãe de Rosana é o epílogo. Um doloroso retorno ao amor de uma mãe. A dolorosa – embora, talvez, otimista – constatação de que, mesmo diante do quadro mais horrível, o sentimento persiste.

Rosana Auri da Silva Candido e Kacyla Priscila Santiago Damasceno Pessoa chegaram ao Distrito Federal em 2018, inicialmente em Ceilândia. Já em Samambaia, fixaram residência na casa 21 do Conjunto 03 da Quadra Residencial 619. Junto com Rhuan Maycon da Silva Castro, filho de Rosana, e G., filha de Kacyla, as duas adultas estavam em fuga há quase cinco anos, desde que, em 2015, saíram da Casa Abrigo Mãe da Mata, na capital acreana, e sumiram do mapa. Instigado por familiares a cortar a pensão da filha para conhecer o paradeiro das mulheres, Rodrigo Oliveira, ex-marido de Kacyla, recorreu à Justiça em três oportunidades. Somente em 29 de maio deste ano, porém, o benefício foi suspenso. “Elas viviam daquele dinheiro, e isso se somou à vontade de se livrar do Rhuan”, comentou o delegado Guilherme Sousa Melo.

A criança tornara-se um estorvo para o casal. “Ele batia na gente e se masturbava o tempo todo”, alegou Kacyla, depois de cometido o crime. Segundo Rosana, o garoto trazia memórias do pai, Maycon Douglas, seu ex-namorado, e a morte do filho “cortaria qualquer vínculo com aquela família”, nas mãos da qual, ainda de acordo com ela, sofreu muito. Pouco mais de um ano antes, o menino fora emasculado. Em Goiás, fora dopado com doses de dipirona e seu membro foi extraído de forma improvisada. Kacyla se encarregou da emasculação e da sutura caseira na pélvis do garoto. A dor era uma constante, pois, para urinar, Rhuan precisava que a bexiga estivesse cheia ao máximo. Às autoridades, Rosana alegou que “ele pediu para cortar, porque queria ser uma menina”.

Sandra da Silva, moradora da QR 113 da mesma RA, recebeu Rosana, G. e Rhuan em sua residência por duas vezes em dezembro de 2018 e uma em janeiro de 2019. Segundo ela, em depoimento à polícia, as crianças – apresentadas como gêmeas – “aparentavam sempre estar com fome”. Ao oferecer comida, o menino aceitou, mas Rosana – “com olhar de ódio” – repreendeu o filho: “Você tem de saber esperar a comida. Não vai comer nem biscoito e nem bolo”. Sandra relata que o menino tinha muito medo da mãe. As tentativas da vizinha em puxar assunto com Rhuan eram respondidas apenas por Rosana, e, quando Sandra sugeriu que ele fosse brincar, a genitora não permitiu. “Ele não pode, porque ele é o capeta. Vai quebrar tudo”, disse aquela que, cinco anos antes, chamava Rhuan de “meu amor”. A menina G., por outro lado, foi brincar com as bonecas e se serviu de bolo, biscoito e suco. Declarando-se pastora, Rosana orou para Sandra e seu esposo, mostrando grande conhecimento da Bíblia. Na refeição oferecida pela mulher, Rosana serviu a si, colocou uma pequena porção para o filho, e G. colocou a própria comida no prato.

Quando terminou, o garoto perguntou se poderia repetir o prato. “Eu não ensinei você a comer muito”, exasperou-se Rosana. Enquanto isso, G. serviu-se mais duas vezes. Rosana queixou-se de que não podia trabalhar. Foi quando Sandra e o marido falaram que Rhuan poderia morar com eles. A resposta foi o silêncio.

Na noite de 31 de maio, Rosana e Kacyla aguardavam, tensas, o fim da novela das nove. Aquele era o dia em que colocariam em prática os planos feitos há um mês. O menino dormia num dos quartos, e, após desligarem a TV, elas foram até ele, ainda em dúvida. Rosana empunhava uma faca comprada pela manhã por R$ 14,99. Na sala, em cujas paredes frases do Velho Testamento estavam fixadas, a decisão se anunciou com um leve grito do garoto. De acordo com laudo do Instituto Médico-Legal (IML), o aço adentrou o pulmão pela costas, tomando-lhe o ar. Quando caiu ao chão, de rosto para cima, ele viu que era a própria mãe quem o afligia. À polícia, Rosana declarou ter dado “mais duas” facadas no filho. “Mas posso ter dado outras”, disse, lembrando que estava “fora de si”. Ao todo, foram 12. As confissões de Rosana, porém, mostram outra versão. “Dei uma facada no peito, ele levantou e eu esfaqueei as costas”, disse Rosana, em depoimento. Kacyla, então, segurou o menino pelos cabelos longos e a mãe atravessou o pescoço de quem outrora chamara de “presente de Deus” com outro golpe, separando o crânio do tórax. E aí – não antes – Rhuan faleceu. De acordo com laudo do IML, o menino teria sido degolado ainda vivo.

Com a ajuda de um martelo e seguindo as orientações de Kacyla, Rosana cortou os braços e as pernas. As duas removeram a pele do rosto “com precisão que me fez considerar ajuda de profissionais”, confessa o delegado. Enquanto Kacyla acendia a churrasqueira, Rosana abriu a barriga do filho e retirou-lhe as vísceras. O tórax, os braços, as pernas e os órgãos internos foram assados, “para amolecer”, segundo elas, e depois serem jogadas no vaso sanitário. Ao ver que faltavam partes do corpo, os policiais questionaram se Rosana havia comido a carne do próprio filho. “Não, mas achei o cheiro agradável”, teria declarado Rosana a um dos agentes no local do crime.

Após esquartejar o menino, as duas alocaram seus membros em uma mala vermelha e duas mochilas escolares de cor rosa. Após trocarem de roupa, Rosana saiu com a bagagem vermelha para depositá-la no bueiro. Ao chegar ao local, Rosana sentou-se no meio-fio. Guilherme Gonçalves, uma das testemunhas, passou pelo local, mas não deu atenção à cena. Na volta, o jovem sentiu falta da bagagem. “Joguei aqui no bueiro. Tinham só umas roupas velhas”, disse ela. Guilherme brincou que “achava que tinha um bebê”, ao que a mulher respondeu não ter marido ou filhos. Rosana voltou à casa atordoada. Kacyla percebeu. “Você quer se matar?”, perguntou, tensa. A companheira não respondeu. “Você quer matar a gente?”, voltou a questionar, incluindo a filha na pergunta. Rosana também não respondeu. Quase simultaneamente, Guilherme e alguns amigos voltaram ao bueiro onde Rosana depositara a mala, e a curiosidade do grupo fez um deles, Luiz Gustavo, tentar puxar para cima. De acordo com ele, “um líquido vermelho desceu.” A mala caiu e se abriu. O conteúdo fez o grupo chamar a polícia.

A alegria que não veio com o fim das buscas

Rodrigo Oliveira estava de plantão na manhã de sábado e o celular tocou. Recebeu assim a notícia de que Rhuan fora morto pela ex-esposa e por Rosana, mas que G. estava bem, num abrigo do Conselho Tutelar. Sem liberação, o homem só pôde se dirigir ao pequeno aeroporto de Rio Branco no domingo, 2 de junho. Ao chegar a Brasília, quis levar a filha de volta de imediato, mas foi demovido da ideia pelos psicólogos que acompanhavam a menina. “Disseram que ela sofreu uma alienação parental muito grande. Ela dizia que eu batia na mãe dela, a Kacyla ficou cinco anos falando mal de mim para ela”, relata o homem, que só voltou com a filha a Rio Branco 15 dias após a morte de Rhuan.

Triste reencontro

Pela dificuldade em remontar os restos mortais do menino, o IML só liberaria o corpo para o traslado Distrito Federal-Acre em dez dias. Com ajuda do governo estadual, Francisco das Chagas, avô paterno de Rhuan, recebeu o neto em Rio Branco já na madrugada de terça-feira, 4 de junho. A curiosidade de quem não via o rosto da criança há quase meia década o fez abrir a tampa da urna funerária. “Até hoje, eu tenho pesadelo com aquela imagem. Todo preto, queimado, tudo cortado. O rapaz da funerária, que trabalha há 18 anos com isso, passou mal e teve que ir pra casa”, lembra Chaguinha. Na sede da empresa Morada da Paz, responsável por receber os restos mortais do garoto, o homem identificado apenas como Divino confirma o fato, mas não quis gravar entrevistas.

Isolamento

Após os depoimentos na delegacia, Rosana e Kacyla foram levadas ao Presídio Feminino do Distrito Federal, o Colmeia, no Gama. Lá, estão isoladas das outras detentas para não sofrerem represálias. O fim das investigações levou a indiciamentos por cinco crimes na comarca do DF: homicídio qualificado por motivo torpe e impossibilidade de defesa; tortura; lesão corporal gravíssima; ocultação de cadáver; e fraude processual. No total, as duas podem pegar até 57 anos de prisão. Outras denúncias devem ser somadas em jurisdições pelas quais elas passaram ao longo da fuga, como abandono intelectual, já que as crianças não estudaram neste período; furto e corrupção de menores, no caso da chácara de Aragoiânia/GO, em 2017, e sequestro, no Acre, por tomarem as crianças sem serem as guardiãs legais.

Mães que ainda amam suas filhas assassinas

Dona Raimunda Lima, a Bizita, mandou recado à neta, criada por ela após a fuga de Zenaide – mulher que trouxe Kacyla à vida. Ao fim da entrevista, ela se agarra ao sofá no qual está sentada e, numa espécie de transe, questiona os atos da mulher que cresceu chamando-a de mãe. “Ê, filha, pra quê que você fez isso? Você deveria ter pensado muito antes, porque você tinha uma vida boa, uma vida tranquila como você sabe que tinha tudo o que queria. Tudo que você pedia a gente dava pra você. O que lhe deu pra você aceitar fazer isso mais a Rosana? É triste para sua mãe, sua mãe sofre muito”. Os olhos de Raimunda se encharcam e as mãos tremem. Os dedos dançam no braço do móvel buscando o apoio que não vem há cinco anos, desde que a menina sorridente deixou o Acre para nunca mais voltar.

Pouco antes do retorno a Brasília, a reportagem recebeu uma ligação de Maria Antônia, mãe de Rosana. “Pode passar aqui?”, perguntou. No bairro João Paulo II, a avó materna de Rhuan entregou um envelope azul endereçado à filha. Com permissão da mulher, o Jornal de Brasília teve acesso ao conteúdo. Uma carta de Maria Antônia questiona os motivos que levaram ao assassinato do neto. “Um ser que saiu de dentro de mim matou seu próprio filho, filho que é a herança que Deus nos dá. Como pode?”. Maria Antônia também não crê que a morte fosse a única opção. “Por que não deu ele pra mim? (…) Poderia ter deixado numa delegacia com os nossos nomes, num papel”, lamenta a avó do menino. Apesar do tom duro e indignado, ela se desculpa com Rosana, talvez por não tê-la aceitado de volta quando ficou grávida, lembrando-a que sempre vai amá-la: “Desde já, quero lhe pedir perdão por toda a mágoa que tem de mim, me perdoe por tudo o que eu lhe fiz sofrer, me perdoe em nome de Jesus (…) Eu não poderia deixar de dizer que eu te amo, é minha filha que Deus me deu.”

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